terça-feira, 23 de junho de 2026

O Silêncio da Raiz: Itabira se despede de Dona Tita, Matriarca do Quilombo Morro Santo Antônio


Maria Gregória Ventura falece aos 101 anos, deixando um legado imensurável de fé, resistência e ancestralidade. Prefeitura decreta três dias de luto oficial.

Itabira amanheceu mais silenciosa. Partiu, aos 101 anos de idade, Maria Gregória Ventura, a nossa querida Dona Tita. Matriarca e pilar do Quilombo Morro Santo Antônio, ela se despede deste plano deixando uma história grandiosa que atravessa gerações e se confunde com a própria identidade e resistência do povo negro na região. Uma vida inteira dedicada à fé, à força de suas raízes e ao cuidado afetuoso com a memória de sua comunidade.

Dona Tita foi raiz firme. Foi presença constante, mansa e acolhedora. Pertencente a uma geração de guardiões, ela carregava a sabedoria simples e profunda daqueles que não precisam erguer a voz para ensinar os maiores mistérios da vida. Conhecedora das ervas medicinais, artesã de mãos cheias com seus crochês e tapetes, e contadora de histórias nata, ela era a memória viva de um território com mais de três séculos de história nas colinas itabiranas. Sua trajetória de luta e devoção chegou a ser eternizada no documentário "Tita – 100 anos de luta e fé", um registro necessário de sua luz e resiliência.

O Reencontro de Duas Gigantes

A partida de Dona Tita ocorre em um momento de profunda sensibilidade para a comunidade quilombola de Itabira, que há pouquíssimo tempo também se despediu de outra de suas grandes lideranças: Dona Rosinha (Rosemary Álvares de Souza).

Mais do que familiares, Tita e Rosinha foram cumplicidade pura. Foram laço firme, cuidado mútuo e caminhada compartilhada na defesa intransigente dos direitos e das tradições do povo quilombola de Minas Gerais. Juntas, formaram uma dupla inesquecível que marcou a história do Morro Santo Antônio. Hoje, imaginá-las reunidas na espiritualidade traz um sopro de conforto em meio à dor; duas gigantes que deixaram na terra o mais bonito exemplo de afeto, pertencimento e resistência coletiva.

Reconhecimento e Luto Oficial

Em justa homenagem à sua trajetória e à incontestável relevância cultural, social e histórica de Dona Tita para o município — cujo centenário foi celebrado com honrarias institucionais e instituído como ano temático por lei municipal —, a Prefeitura de Itabira decretou oficialmente três dias de luto oficial.

Neste momento de imensa tristeza e transição, manifestamos nossa mais profunda solidariedade aos familiares, amigos, vizinhos, moradores do Quilombo Morro Santo Antônio e a todos os itabiranos que tiveram o privilégio de receber um sorriso, um conselho ou a benção de Dona Tita.

Itabira hoje se despede fisicamente, mas ergue os braços em profunda gratidão. Dona Tita não nos deixa por completo: ela permanece viva em cada canto do quilombo, nas tramas dos artesanatos que teceu, na terra que tanto amou e, para sempre, no coração do nosso povo. Que sua passagem seja de luz e paz.









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